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Fernando Lopes-Graça

[N. 1906, M. 1994]

imagemNascido em Tomar, a 17 de Dezembro de 1906, no seio de uma família da pequena burguesia, cedo revela habilidades para tocar piano. Aos 14 anos é pianista no Cine-Teatro de Tomar, tocando Debussy e compositores russos contemporâneos, o que era pouco habitual na época. Em 1923 ingressa no Curso Superior do Conservatório de Lisboa, onde tem como professores, entre outros, Adriano Meira, Tomás Borba e Luís de Freitas Branco. Em 1927 inscreve-se na Aula de Virtuosidade de um antigo aluno de Liszt, José Viana da Mota, seu Mestre e amigo.
Em 1928 matricula-se na Faculdade de Letras de Lisboa em Ciências Históricas e Filosóficas. Nesse mesmo ano apresenta-se pela primeira vez como compositor interpretando ele próprio as Variações sobre um tema popular português para piano solo. Em Tomar funda o semanário republicano “A Acção” e, em 1929, com Pedro Prado, publica no Conservatório de Lisboa a revista “Música”.
Em 1931 abandona a Faculdade de Letras de Lisboa como protesto contra certas medidas coercivas tomadas pelo Conselho Escolar durante uma greve académica. Entretanto, termina o Curso Superior de Composição com a mais alta distinção e obtém a 1ª classificação para o lugar de professor de piano e solfejo do Conservatório. No entanto, por motivos políticos, não chega a tomar posse. É preso e desterrado para Alpiarça onde escreve : “Revolução e Liberdade são sinónimos, são equivalentes. São leis imutáveis gravadas na face do Cosmo, eternas e divinas como ele”.
Volta à Faculdade de Letras mas não chega a acabar o curso. Convive com poetas e escritores da revista “Presença”, um grupo de vanguarda da poesia portuguesa. Em 1937 ganha uma bolsa para estudar em Paris mas que lhe será recusada por motivos políticos. No entanto, e a expensas suas, parte para Paris onde estuda Composição e Orquestração com Koechlin.
Antes da partida para Paris, num concerto no Teatro Éden em Lisboa, conhece Maria da Graça Amado da Cunha, jovem pianista e aluna de Francine Benoit. Será o início de uma amizade que durará mais de 50 anos, tornando-se a sua intérprete preferida.
Em 1940 regressa a Lisboa. Exerce grande actividade como compositor, pianista, crítico teatral em “O Diabo” e musical na “Seara Nova”, organiza coros de amadores de música ao mesmo tempo que escreve canções originais e harmoniza canções regionais portuguesas.
Em 1941 inicia o seu magistério na Academia de Amadores de Música e em 1942, com o apoio do director artístico Tomás Borba organiza a sociedade de concertos Sonata, com o objectivo de divulgar a música do século XX através de concertos, palestras e audição pública de música gravada. Depressa a Sonata se torna um ponto de encontro de uma vanguarda intelectual, politicamente contra a ditadura salazarista.
Em 1949 as divergências com a orientação ideológica assumida pela “Seara Nova” levam-no a deixar a revista, publicando em 1951 a “Gazeta Musical”, mensal, que reúne à sua volta músicos, poetas, escritores e pintores. Mesmo vigiados pelo regime, muitos são os que colaboram de forma gratuita.
Em 1954, mais uma vez por razões políticas, é-lhe retirado o diploma do Ensino Artístico Particular. Não pode dar aulas na Academia e até mesmo em casa. É convidado a publicar um Dicionário de Música em português.
Em 1961, com o seu amigo Michel Giacometti, procede à recolha na origem de canções que os camponeses cantam nas aldeias e são transmitidas de geração em geração, sendo classificadas e analisadas e depois de seleccionadas divulgadas em disco. Nos anos 70 assiste-se ao reconhecimento do valor nacional da obra de Lopes-Graça.

Morre a 27 de Novembro de 1994.

Marchas, Danças e Canções
Em 1946, Fernando Lopes-Graça compõe a música desta obra, com versos inéditos de Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Carlos de Oliveira, Edmundo Bettencourt, João José Cochofel, Joaquim Namorado, José Ferreira Monte, José Gomes Ferreira e Mário Dionísio, a publicar pela “Seara Nova”.
Pretendia o compositor que esta colectânea desse “ao nosso povo um pequeno reportório de canções e danças, que correspondessem ao conteúdo actual da sua consciência e que ele pudesse bailar nos seus momentos de folga ou de entusiasmo”.
Não se trata pois de uma concorrência ao folclore nacional, mas sim de um conjunto de composições musicais que são para toda a gente e toda a gente as deve utilizar como mais lhe convenha: cantando-as a solo ou em coro, adaptando-as para outros instrumentos musicais, introduzindo algumas alterações tendo sempre presente a necessidade de não desrespeitar as intenções dos autores e cuja inspiração tem por base a tradição popular.
Foi esta obra censurada pelos serviços do SNI – Secretariado Nacional de Informação, “por apresentar uma nova modalidade subversiva, uma espécie de música celestial, com a sua finalidade comunizadora, evidenciada desde o prefácio (da autoria de Fernando Lopes-Graça) às letras das diversas poesias musicadas que contém”.
Segundo os serviços de Censura esta publicação, colocada à venda pela “Seara Nova”, inscrevia-se no tipo de publicações que versavam assuntos de carácter político e social.
A não apresentação da obra aos serviços de censura antes da sua publicação provocou a sua apreensão em 1946, na medida em que tal constituía, de acordo com a legislação então em vigor, uma transgressão. Presente à apreciação do Presidente do Conselho, este despachou mencionando que “a apreensão está plenamente justificada. Interessa que seja séria e que além disso sejam chamados à responsabilidade os autores”, solicitando-se a intervenção da PIDE.
“Que hei-de dizer-lhes acerca da Música, que os interesse e que esteja ao meu alcance?. Poderia dizer-lhes enfim, como além de uma Arte a considero uma Religião, a minha única Religião (…) e como visiono uma única Religião do Futuro, a única Religião de uma Humanidade Livre, Justa e Sábia”. (Fernando Lopes-Graça)

fonte: Instituto dos Arquivos Nacionais - Torre do Tombo