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01 Jan 2017
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ROMEU CORREIA

Cacilhas,1917 | Almada, 1986

Romeu Henrique Correia nasceu e viveu na “outra margem”. Na margem sul do rio Tejo, contactou desde cedo com o quotidiano do operariado da cintura industrial de Lisboa e com as desigualdades sociais, realidades que vieram a marcar o seu percurso como escritor e a ser fonte de inspiração direta para várias das suas obras.

Paralelamente à sua atividade literária, exerceu várias profissões, entre as quais a de bancário. Demonstrou desde a juventude uma especial predileção pelo desporto e pelo teatro, que praticou em grupos amadores locais. Destacou-se também pelo seu dinamismo no movimento associativo, bem como pela sua intervenção política antes e depois do 25 de Abril. Integrou os órgãos diretivos de várias instituições, entre as quais a Sociedade Portuguesa de Autores.

A sua obra romanesca publicada foi iniciada com o romance Trapo azul (1948), que lhe valeu de imediato a atenção da crítica. Embora com uma obra importante nas áreas do romance e do conto, Romeu Correia distinguiu-se na escrita para teatro, tanto pelo volume de textos produzido como pelo reconhecimento desde cedo alcançado junto do público e da crítica especializada. Publicou cerca de duas dezenas de peças, a maioria das quais levadas à cena com regularidade.

A sua obra foi sendo referida ao neorrealismo e chegou a ser considerado “o mais genuíno dos dramaturgos de tendência neo-realista”, apresentando, todavia, uma “obra que não se deixa limitar por padrões estéticos”, antes combinando “habilmente elementos do teatro de fantoches e de feira, do circo, do melodrama populista e do teatro de vanguarda”.

Romeu Correia recebeu várias distinções, como o Prémio de Teatro (1972), da Casa da Imprensa, o Prémio Ricardo Malheiros (1976), da Academia de Ciências de Lisboa, e, entre outras, o Prémio de Teatro 25 de Abril (1984), da Associação Portuguesa de Críticos de Teatro. Foi condecorado pela Câmara Municipal de Almada com a Medalha de Ouro da Cidade (1978).

Adaptado de texto de Miguel Falcão

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LUÍS DE ALBUQUERQUE

Lisboa, 1917 | Lisboa, 1992

Depois da primeira escolaridade em Coimbra, entrou no Colégio Militar em 1929. Sente-se intensamente atraído pela matemática. Licenciou-se em Lisboa no ano de 1939, foi aprovado (em 1959) nas provas de doutoramento a que se apresentou em Coimbra com a tese «Sobre a teoria da aproximação funcional», tornou-se professor extraordinário em 1962 com o trabalho «Matrizes de Elementos Não Negativos” e atingiu a cátedra em 1966. Publicou extensamente em revistas da especialidade, como «Gazeta da Matemática» e «Revista da Faculdade de Ciências da Universidade de Coimbra» e editou manuais de algumas das suas lições, um dos quais, «Cálculo Infinitesimal» (1963) organizado pelo seu grande Amigo Joaquim Namorado.

Estudos pioneiros sobre História do Ensino em Portugal e a História da Ciência e da Técnica na época dos descobrimentos, na viragem dos anos 50 para os anos 60, abrem caminho para o historiador. Sem abandonar a matemática nem a vida cívica (Governador Civil de Coimbra, 1974-1976), produziu um notável obra de historiador: é a grande figura da História da Náutica Astronómica, para o que a sua formação matemática era um contributo decisivo, interveio na organização da renovação de estudos sobre os descobrimentos e tomou a iniciativa de escrever, preparar ou dirigir obras cientificamente sólidas destinadas ao grande público.

Desde os meados de trinta, frequentou a famosa casa do poeta João José Cochofel, um dos locais de organização e irradiação do neorrealismo e aí, direta ou indiretamente, participação em muitas discussões e iniciativas, como a edição de revistas e coleções.

Apesar de ainda não ser completamente conhecida, pode dizer-se que a atividade em «Vértice» foi de extrema importância. Colaborador, primeiro, e depois secretário informal entre 1948 e 1953, a sua intervenção foi decisiva. No desenlace da candidatura presidencial de Norton de Matos que atinge violentamente os setores da oposição democrática e em especial o aparelho clandestino do PCP, cujo setor intelectual sofre um duro revés, em Coimbra particularmente sentido e com impacto inevitável na revista, Luís de Albuquerque assegurou o seu funcionamento regular: solicitava e apreciava a colaboração, organizava cada número com a coerência possível, procurava que a revista se mantivesse atenta a aspetos centrais da atualidade cultural (lembre-se o intenso debate desencadeado pelo início da edição das obras de Fernando Pessoa, no qual participa). E, além de tudo isto, escreveu imenso e com vários pseudónimos.

“Grafómano”, maníaco da escrita, como o caracterizou o grande germanista Paulo Quintela, viajante por todos os cantos do mundo, insaciavelmente curioso de todos os aspetos da vida, capaz de combinar com rigor áreas teóricas que a nossa tradição cultural dividiu e por vezes opôs, Luís de Albuquerque identificou o neorrealismo de um modo certeiro: “um esforço intectual conjunto, para se começar a construir um mundo completamente diferente do mundo em que estávamos entaipados”.

Adaptado do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,
Vol. IV, Lisboa, 1997

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ÓSCAR LOPES

Leça da Palmeira, Matosinhos, 1917 | Porto, 2013

Caraterizaram já Óscar Lopes como “homem múltiplo”: designação justa para a singularidade da sua formação académica, o largo campo de interesses ou o âmbito alargado da intervenção cultural, cívica e política. A multiplicidade está, porém, unificada por uma compreensão da historicidade do devir humano, centrada no marxismo, ele próprio também historicizado, o que confere ao pensamento de Óscar Lopes uma “tonalidade” própria.

Licenciado em Filologia Clássica pela Universidade de Lisboa em 1941 e, depois, em Ciências Histórico-Filosóficas pela Universidade de Coimbra, obteve ainda diplomas superiores no Instituto Britânico e no Conservatório de Música do Porto. Impedido prosseguir uma carreira universitária, foi professor no Liceu de Vila Real e no Liceu Rodrigues de Freitas, no Porto. Em 1974, após o 25 de Abril, ingressa na Faculdade de Letras, de que logo é diretor (até 1976) e onde ensina até à aposentação.

Na sua intensa atividade cultural, a partir de 1940, colaborou nas mais importantes revistas literárias portuguesas – Seara Nova, Vértice, Mundo Literário, Colóquio Letras. Entre 1951 e 1967 (por vezes com o pseudónimo de Luso do Carmo, por imposição da censura), exerceu crítica literária no suplemento “Literatura e Arte” de O Comércio do Porto. Em 1969, reuniu alguns desses textos em dois volumes: «Ler e Depois» e «Modo de Ler». «Álbum de Família» (1984) e «Os Sinais e os Sentidos» (1986) virão antes das imponentes novecentas páginas de «Entre Fialho e Nemésio» (1987). A questão do realismo está presente: mas “não nos devemos interessar pelo realismo como categoria mas como critério de interpretação e valorização artística”.

Com António José Saraiva, publicou em 1955 aquela que se tornou, porventura, a mais conhecida e influente História da Literatura Portuguesa, regularmente reeditada e atualizada.

Os seus trabalhos de ensaio e crítica foram distinguidos com os prémios «Rodrigues Sampaio» e «Jacinto do Prado Coelho», este último instituído pela Secção Portuguesa da Associação Internacional de Críticos Literários.

Entre 1967 e 1971, bolseiro do Instituto de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian, com equiparação a bolseiro pelo Instituto de Alta Cultura, realizou importantes investigações quanto à coordenação do ensino das disciplinas de Língua Portuguesa e de Matemática, ao nível do então ciclo preparatório, trabalho que apresentou em edições daquela Fundação de 1970 e 1971. No âmbito dos estudos linguísticos, é menção obrigatória a sua «Gramática Simbólica do Português» (1971).

Desde 1941-42, desenvolveu uma intensa atividade política e participou em todos os movimentos de índole democrática, incluindo, desde 1945, a militância no PCP, a cujo Comité Central pertenceu (1976-1996).

“Homem múltiplo” – para compreender como é que o que acontece é uma manifestação da unidade profunda da história.

Adaptado do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,
Vol. IV, Lisboa, 1997

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MANUEL FERREIRA

Gânadara dos Olivais, 1917 | Linda-a-Velha, 1992

Militar de carreira, Manuel Ferreira dedicou-se à literatura, tendo-se destacado como ficcionista e ensaísta e estudioso da literatura de autores africanos.

No Exército, onde ingressou como voluntário com apenas 16 anos, o seu envolvimento nas movimentações de resistência militar à reforma do Exército de Salazar, conduziu-o à prisão, onde encetou uma reorientação política de origem marxista.

Após a prisão regressa à vida militar, tendo prestado serviço como oficial do Exército nas antigas colónias portuguesas de Cabo Verde (1941-1947), Índia (1948-1954) e Angola (1966-1967), atingindo o posto de capitão.

Em Cabo Verde, onde casaria com a escritora Orlanda Amarilis, para além de ter convivido com os poetas e prosadores locais, colheu, por um lado, materiais humanos e linguísticos que viriam a refletir-se na sua obra de ficção, que se integra na corrente neorrealista inicial, e, por outro, uma paixão pela literatura africana de língua portuguesa, que marcaria toda a sua atividade de divulgador, ensaísta e, finalmente, de professor.

Depois do 25 de Abril foi o responsável pela introdução da cadeira de Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cadeira que regeu até morrer. Foi ainda na mesma Universidade codirector do Instituto de Estudos Africanos.

Fundou e dirigiu a revista África (1978-1992), bem como as Edições ALAC - África, Literatura, Arte e Cultura, onde foram publicadas algumas obras de autores africanos e ensaios sobre a história das literaturas africanas de língua portuguesa.

Colaborou nas publicações culturais cabo-verdianas Certeza, Claridade e Cabo-Verde, nas moçambicanas Itinerário e Paralelo 20 e na açoriana Açoria. Em Portugal, colaborou principalmente em: Portucale, Seara Nova, Ocidente, Estudos Ultramarinos, Ver e Crer, Vértice, Colóquio Letras, JL e Loreto 13. Desta última revista, foi diretor a partir de 1983.

Dirigiu, organizou e prefaciou a coleção fac-similada da revista Claridade e, sob o título de O Canto de Ossobô, a obra poética de Marcelo da Veiga.

Foi presidente da Associação Portuguesa de Escritores.

Adaptado do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,
Vol. IV, Lisboa, 1997

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JOFRE AMARAL NOGUEIRA

Trancoso, 1917 | Lisboa, 1973

Jofre Amaral Nogueira licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas na Universidade de Coimbra. Durante o curso, aprofundou o conhecimento do marxismo e esteve, por essa via, em consonância com a formação do neorrealismo. Particularmente relevante para estabelecer a autonomia do campo marxista foi a polémica com António Sérgio, explícita em dois famosos artigos publicados em Sol Nascente: «Carta ao Sr. António Sérgio» (nº. 19, Nov. 1937) e «Comentário para Compreender» (nº. 21, Dez., 1937). Nesse período, toda a sua intensa colaboração (O Diabo, Síntese) visou afirmar a justeza filosófica do marxismo e mostrar que ele constituía o campo de formação das soluções adequadas para os grande problemas teóricos, político-sociais e culturais do momento.

Militou muito jovem no Partido Comunista Português, tendo por isso conhecido a prisão, no ano de 1938.

Impedido de lecionar no ensino oficial, fixou-se em Angola como professor do ensino secundário, dedicando-se durante os anos 50 a estudos de sociologia e história angolana, especialmente à colonização do Huambo, dando relevo ao papel desempenhado pelas minas interiores do sal, e ali colaborando em Boletim Cultural do Huambo, Boletim do Instituto de Angola, Voz do Planalto, Jornal de Huíla, Jornal do Comércio e Diário de Luanda.

De volta a Portugal em 1959, lecionou no ensino técnico oficial em Espinho, Viseu e no Porto e colaborou nas revistas Seara Nova, Vértice e Colóquio Letras, bem como nos suplementos literários de O Comércio do Porto e de A Capital e no Diário de Lisboa, onde se ocupou sobretudo de obras e problemas de índole filosófico-doutrinária e pedagógica.

Colaborou extensamente no Dicionário de História de Portugal, sob a direção de Joel Serrão. Confrontou-se com o positivismo lógico de Abel Salazar (um dos maîtres-à-penser da sua geração).

Em 1971 reuniu no livro Um Humanismo à Nossa Medida alguns desses ensaios. Mas nenhuma destas obras dá a imagem exata da importância da sua intervenção nem a partir delas será fácil reconstruir o seu percurso, o que só uma leitura paciente de toda a sua colaboração dispersa permitirá fazer.

Adaptado do Dicionário Cronológico de Autores Portugueses,
Vol. IV, Lisboa, 1997