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O Edifício

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O atual Museu do Neo-Realismo, instalado num novo edifício da autoria do Arquiteto Alcino Soutinho, no dia 20 de outubro de 2007, foi também o concretizar de uma das prioridades da política cultural do Município de Vila Franca de Xira - criar as condições para a implementação de um novo projeto museológico mais ambicioso e de âmbito nacional.

O Museu do Neo-Realismo constitui um marco fundamental na obra do arquiteto Alcino Soutinho (1930-2013), representativo da importância que os museus assumiram ao longo do seu percurso académico e profissional. Logo nos anos 1950, ainda como estudante na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, Soutinho faz as suas primeiras incursões no campo da arquitetura de museus e da museologia, iniciando assim uma linha de investigação que irá prosseguir nas décadas seguintes.

Decorrida mais de uma década sobre a inauguração do seu edifício, o Museu do Neo-Realismo realizou uma exposição temporária sobre o projeto de arquitetura e o seu autor. Com curadoria da Arquiteta Helena Barranha, a exposição partiu de uma leitura do Museu do Neo-Realismo enquanto espaço de convergência de várias viagens e pesquisas que marcaram a vida e a obra do arquiteto. Articulando os museus visitados, em diferentes países e momentos do seu percurso, e os projetos que realizou para espaços museológicos, a exposição, Um edifício, muitos museus. Alcino Soutinho e o Museu do Neo-Realismo, evidencia o modo como o Museu do Neo-Realismo reflete e sintetiza exemplarmente essas múltiplas referências, relacionando-as com a especificidade do contexto urbano de Vila Franca de Xira e com um programa museológico singular.

"Alcino Peixoto Castro Soutinho nasce em Vila Nova de Gaia em finais de 1930.

Por força da profissão do pai frequenta três escolas primárias sempre com o desejo de ser sapateiro numa provável antevisão da sua propensão para ter os pés bem assentes na terra.

Entra depois no Liceu Alexandre Herculano onde cumpre os estudos secundários e abandona a sua vocação de sapateiro. Propõe-se, então, seguir um curso de for mação artística na área da pintura que abandona também por considerar, à época, uma profissão de difícil realização. Para esta decisão contribuiu o conselho paterno e a já referida vocação para ter os pés assentes na terra. Mal sabia o que o esperava.

Como alternativa, em 1948, matricula-se em Arquitetura na Escola Superior de Belas Artes do Porto após exame de admissão.

Conclui o curso e defende a tese final em 1958 na qual obtém a classificação de 20 valores. Conclui, também, até por força da classificação obtida, que finalmente tinha acertado na vocação.

Os 10 anos de frequência do curso não se devem, contudo, a qualquer postura menos dedicada aos estudos, mas às incursões políticas entretanto realizadas. A participação em manifestações, a divulgação de documentos e outras atividades antifascistas levam-no a ser preso e torturado pela PIDE o que o obrigou a interromper o curso.

A estadia na prisão trouxe-lhe, apesar de tudo, a oportunidade de conhecer pessoas que se revelaram importantes contributos para a sua formação como cidadão. Em 1961 obtém uma bolsa de estudo da Gulbenkian para estudar Museologia em Itália, aí permanece durante um ano estudando e visitando as mais importantes cidades. Teve aulas no Politécnico de Milão com o Professor Ernesto Rogers e na Faculdade de Arquitetura de Roma com o Professor Piero Luigi Nervi.

A experiência revelou-se altamente enriquecedora e influenciou decisivamente as suas preferências como pessoa e como profissional. Ainda hoje Itália é um país de referência e a língua italiana a que mais gosta de falar. Regressado a Portugal trabalha como arquiteto tirocinante com os Arquitetos Arménio Losa, José Carlos Loureiro, Viana de Lima e Fernando Távora.

Em 1963 casa com uma Lisboeta de fazer parar o trânsito.

Em 1966 e 1967 nascem as duas filhas. A Andrea, mais nova, é arquiteta, trabalha consigo desde sempre e tinha como missão principal preservar o seu bom humor. A Cláudia, mais velha, é advogada e só intervinha quando a coisa corre mal e colabora com a irmã na prossecução da sua missão principal.

Em 1972 é convidado para dar aulas na ESBAP no Departamento de Arquitetura. Torna-se, entretanto, Professor Associado depois de ter prestado provas académicas.
Realizou dezenas de viagens na companhia dos seus amigos mais queridos — Estados Unidos da América, China, Índia, Singapura, Síria, Jordânia, Egipto, Brasil, Argentina, Uruguai, Espanha, França, Inglaterra, Alemanha, Holanda, Bélgica, Luxemburgo, República Checa, Turquia, Grécia. Em todos os sítios deixou um bocado de si e de todos trouxe retalhos que o acrescentaram. É hoje o resultado de tudo isto e, por isso, é feliz."

Baseado na autobiografia, in Alcino Soutinho: representações de Arquitetura. Catálogo da exposição apresentada na Galaria Municipal de Vila Franca de Xira, 2007.

Alcinho Soutinho faleceu no Porto a 24 de novembro de 2013.