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Museu do Neo-Realismo
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Agenda
- exposição DO NEO-REALISMO À PÓS-REALIDADE
de Rui Soares Costa
MOVIMENTO DE RESISTÊNCIA - ARTE CONTEMPORÂNEA NO MUSEU DO NEO-REALISMO
Os trabalhos de Rui Soares Costa refletem uma perceção do tempo, sem nunca o representar. A sua atitude diante do ato criativo compreende sempre uma consciência da temporalidade, cuja transferência entre o exercício da repetição gestual (por exemplo, o gesto gráfico da linearidade) e o seu efeito visual confirma o estatuto privilegiado da processualidade no resultado da obra de arte.
A partir da figura geométrica do trapézio e da sua formalização objetual, o artista explora ao mesmo tempo uma ideia de espaço, na experiência conceptual de uma sequência em vídeo onde o registo do tempo (neste caso, cerca de 6h20, associadas aos ciclos das marés), nos permite auscultar a essência cósmica da natureza e os perigos que esta enfrenta na nossa contemporaneidade. Podemos dizer, neste contexto, que a ação dos elementos sobre a matéria, como na oxidação do aço desses trapézios observados nos ciclos das marés, constitui ainda uma metáfora sobre o desequilíbrio climático do nosso planeta.
Na exposição, que carrega no título um outro sentido de realismo, assistimos à ação performativa levada a cabo pelo artista ao longo do período expositivo. Entre o sentido do dever e o prazer da criatividade, realiza-se aqui uma outra dimensão sobre a consciência do tempo. Através de um exercício criativo meticulosamente executado na repetição dos dias sobre essa longa mesa, somos convidados não apenas a sentar e a observar a tarefa artística do desenho, como a refletir sobre o seu sentido ou reconhecimento nos nossos dias.
Com esta performance, Rui Soares Costa estabelece um diálogo com o contexto reivindicativo do neorrealismo, incorporando referências ao valor do trabalho e às suas condições materiais e simbólicas. O artista articula o processo de criação com a memória de um esforço laboral que, em meados do século XX, implicava dedicação total e reconhecimento limitado. Essa relação entre prática artística e experiência do trabalho físico é aqui retomada como ponto de observação sobre a persistência ou transformação dessas dinâmicas no presente. A proposta convoca o visitante a refletir sobre o modo como a criação artística pode servir de espaço de reencontro entre a memória, o tempo histórico e a condição contemporânea. Se a obra lança o desafio, é ao olhar de cada um que cabe escutar-lhe a resposta.
Curadoria: David Santos