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Museu do Neo-Realismo
- Nascia Carlos Paredes
em 1925
Carlos Paredes nasceu em Coimbra a 16 de fevereiro de 1925.
Compositor, guitarrista intelectual e militante comunista, o seu percurso artístico está umbilicalmente ligado à guitarra portuguesa, à reinvenção da mesma e à criação de uma nova música portuguesa.
Filho do grande mestre da guitarra de Coimbra Artur Paredes, é com o pai que inicia a sua ligação ao instrumento, e de quem herda um património de técnica e de música, sendo influenciado tanto pela música erudita como pela música popular portuguesa, sobretudo pelo fado de Coimbra, do qual se vai afastando para assumir uma sonoridade universal.
Em 1934 muda-se para Lisboa com a família e é ali que vai desenvolver-se como músico e como homem. Atento às circunstâncias políticas da época, sobretudo por influência da sua mãe, Carlos Paredes junta-se ao Partido Comunista Português na década de 1950. No mesmo período, em 1949, integra os quadros da administração pública, começando a trabalhar no Hospital de São José, primeiro como fiel de lavandaria e depois como escriturário no arquivo de radiografias.
Em 1958 é denunciado por um colega de trabalho e preso e torturado pela PIDE, sob a acusação de pertencer ao Partido Comunista Português. Esteve preso em Caxias durante 18 meses. No ano seguinte é expulso da função pública. Será reintegrado após o 25 de Abril e aí permanecerá até se reformar em 1986.
Grava o seu primeiro disco em 1957, intitulado Carlos Paredes. Ao longo da década de 1960 o seu prestígio crescerá tanto junto das elites culturais como das massas populares, com quem mantém uma relação profunda de quotidiano. Participa nas sessões de Canto Livre, acrescentando uma poética que rompia com a cultura nacionalista dominante e trazia uma nova forma de demonstrar o amor pelo seu país e pela sua gente. Nesse contexto, acompanhou Maria Barroso, Manuel Alegre, José Carlos Vasconcelos e os músicos seus contemporâneos José Afonso, Luís Goes e Adriano Correia de Oliveira.
Desenvolve uma forte ligação a outras expressões artísticas, nomeadamente o cinema, compondo bandas sonoras para vários filmes, de onde destacamos em 1962 Os Verdes Anos de Paulo Rocha e Tráfego e Estiva (1968), de Manuel Guimarães, e no teatro, onde o exemplo mais icónico vem da sua composição para uma peça de Bernardo Santareno, António Marinheiro.
Em 1967 grava o seu primeiro LP – Guitarra Portuguesa e em 1971 edita o disco Movimento Perpétuo, considerado a sua obra-prima. Em 1975 edita É preciso um país, acompanhando à guitarra os poemas lidos por Manuel Alegre.
Em 1970 gravou com a cantora Cecília de Melo, a sua segunda mulher, um disco intitulado Meu País, de onde se destacam “canções tradicionais, submetidas a arranjos do próprio Paredes, e peças da sua autoria, adaptadas para envolverem poemas de Manuel Alegre, Mário Gonçalves e Carlos de Oliveira”*.
Acompanhado durante mais de 20 anos pelo guitarrista Fernando Alvim, viajou por todo o mundo, celebrizando o instrumento e sensibilizando o público para a dura realidade de Portugal no período da ditadura. No seu percurso internacional, colaborou, ao vivo, com artistas plásticos, desde África à Escandinávia.
Carlos Paredes foi também um intelectual que deixou uma breve obra escrita, espalhada por jornais como o Diário de Lisboa e o Jornal de Letras ou até pelos textos de contracapa dos seus discos. Uma parte significativa dessa intervenção está relacionada com a ligação necessária dos artistas à vida e à realidade e com a polémica na definição do que é a música popular portuguesa.
Após o 25 de Abril Carlos Paredes continuou a participar em iniciativas culturais populares e foi um importante dinamizador da Festa do Avante!, iniciativa que considerava um exemplo da sua conceção de cultura. Ao mesmo tempo continuou a divulgar a música portuguesa, representando o país institucionalmente em diversas cerimónias oficiais e concertos por todo o mundo.
Faleceu em Lisboa a 23 de junho de 2004.
Em 2003 a Câmara Municipal de Vila Franca de Xira homenageou o músico, instituindo o Prémio Carlos Paredes, com o objetivo de distinguir trabalhos discográficos de música instrumental não erudita, nomeadamente a de raiz popular, que tenham sido editados no ano anterior a cada edição.
Em 2025, por ocasião do seu centenário, o Museu do Neo-Realismo dedica-lhe uma exposição evocativa, intitulada “Uma Guitarra Com Gente Lá Dentro – 100 anos de Carlos Paredes”, com curadoria de Fernando Marques e Jorge Carvalho.
*FONSECA, Octávio, in CARLOS PAREDES – A GUITARRA DE UM POVO, EDIÇÃO CENTENÁRIO · 1925 – 2025), Edição – TRADISOM PRODUÇÕES CULTURAIS, LDA, FEVEREIRO DE 2025.
Fontes
CARLOS PAREDES – A GUITARRA DE UM POVO, de Octávio Fonseca
Museu do Fado