-
Museu do Neo-Realismo
-
Exposições
- Exposição "Marcelino Santos - Realismo Ilhéu"
com Curadoria de Carlos Noronha Feio e Ricardo Barbosa Vicente
Uma profícua parceria entre o Museu do Neo-Realismo e o CNAD, entre Portugal e Cabo Verde
É com satisfação e orgulho que o Museu do Neo-Realismo apresenta a exposição Realismo ilhéu, de Marcelino Santos, nas suas salas de arte contemporânea. Esta exposição inscreve-se no quadro de uma parceria institucional entre o nosso museu e o Centro Nacional de Arte, Artesanato e Design (CNAD), sediado no Mindelo, Ilha de São Vicente, Cabo Verde, sob direção de Artur Marçal, consolidando um eixo de cooperação transnacional no espaço artístico lusófono.
Dando continuidade ao projeto expositivo Uma Poética Resistente, apresentado pelo Museu do Neo-Realismo no CNAD no início de 2025, com base na sua coleção de artes plásticas associada ao neorrealismo português, Realismo ilhéu propõe uma problematização das categorias de realismo à luz de um contexto insular específico. A prática artística de Marcelino Santos evidencia uma inscrição nas dinâmicas socioculturais cabo-verdianas, articulando formas de representação que convocam simultaneamente memória, pertença e condição geográfica. Neste sentido, a exposição configura-se como um campo de reflexão sobre as possibilidades contemporâneas do realismo, entendido não como mera estratégia mimética, mas como dispositivo interpretativo capaz de mediar tensões entre historicidade, identidade e experiência vivida.
Ao acolher este projeto, o Museu do Neo-Realismo reafirma a sua vocação enquanto plataforma de investigação, circulação e reconfiguração crítica das práticas artísticas comprometidas com o real, promovendo o diálogo entre geografias, discursos e temporalidades diversas.
Quero ainda deixar aqui expresso o meu profundo agradecimento ao artista Marcelino Santos, aos curadores da exposição, Carlos Noronha Feio e Ricardo Vicente, assim como ao Artur Marçal, incansável diretor do CNAD, à Embaixada de Cabo Verde em Portugal, à equipa do Museu do Neo-Realismo e a outros setores do nosso Município que, num esforço conjunto, tornaram possível a realização desta parceria em forma de exposição.
David Santos
Diretor Científico do Museu do Neo-Realismo
- Marcelino Santos: Realismo Ilhéu
Nascido em 1957, na ilha de Santo Antão, Cabo Verde, Marcelino Santos é uma das figuras marcantes da cena artística mindelense das últimas quatro décadas. Desde cedo integrou a mítica Cooperativa Resistência, fundada em São Vicente em 1976. Nascida no contexto da nova realidade cabo-verdiana, a Cooperativa foi um projeto de forte dimensão identitária, que procurou construir um sentido de futuro comum a partir da cultura, da memória coletiva, das artes populares e do artesanato.
Através da recuperação e reinvenção de práticas artesanais tradicionais, desenvolvidas por artistas como Bela Duarte, Luísa Queirós e Manuel Figueira, pertencentes à geração que antecedeu Marcelino Santos, a Cooperativa teve um papel fundamental na afirmação das artes têxteis cabo-verdianas e na valorização dos saberes locais.
A exposição aqui apresentada reúne trabalhos recentes, tapeçarias e desenhos enquanto elementos estruturantes da sua ação criativa, propondo uma leitura da obra de Marcelino Santos a partir da sua relação com o têxtil, o desenho e a representação da vida popular em Cabo Verde.
Nas suas obras surgem figuras no trabalho, cenas de pesca, de mercado, de circulação, de festa e de vida comunitária. Gestos quotidianos e personagens singulares, quase monumentais na forma como ocupam o espaço. Peças como Mulher de Pedra, Homem do Atum, Camponês ou Peixeira da Rua da Praia evocam ofícios, figuras e ambientes reconhecíveis de São Vicente, onde tudo parece próximo e familiar. São retratos de uma realidade insular construída sobre a proximidade, a partilha e a continuidade das tradições.
Nas obras dedicadas ao Sanjon e ao Carnaval emerge uma outra dimensão da vida coletiva: a celebração, o encontro e a festa popular. O Carnaval, do qual o próprio Marcelino Santos já foi rei, é uma das expressões culturais mais emblemáticas de São Vicente, ou Soncent, como dizem as suas gentes. É simultaneamente uma tradição que se renova e um dos grandes elementos de atração da ilha. Há nestas obras humor, movimento e uma alegria crítica, essa capacidade tão mindelense de transformar a vida em cena, cor e personagem.
A prática artística de Marcelino Santos nasce de um conhecimento profundo da tecelagem e da tapeçaria, mas não se limita ao domínio técnico. As suas imagens partem da observação direta da vida comum e ganham forma através do desenho, do fio, da cor e da composição, transformando cenas do quotidiano em representações carregadas de memória e identidade.
A mostra reúne desenhos e tapeçarias, permitindo acompanhar diferentes momentos e modos de trabalho. Nos desenhos, existe uma relação mais imediata com o gesto e com a figura. Nas tapeçarias, a imagem adquire outro tempo: o tempo da matéria, da repetição e da construção manual. O fio obriga a imagem a demorar-se, a ganhar corpo e permanência.
A obra de Marcelino Santos desenvolve-se num território onde as fronteiras entre arte e artesanato deixam de ser determinantes. O desenho, a tapeçaria e o trabalho manual pertencem a uma mesma prática artística, profundamente ligada à cultura material cabo-verdiana. Esta exposição procura revelar a forma como essas dimensões se cruzam na sua obra, sem hierarquias rígidas, mas através da inteligência das mãos e do olhar.
O seu trabalho inscreve-se numa história cultural cabo-verdiana ligada à Cooperativa Resistência, ao Centro Nacional de Artesanato e à valorização das práticas têxteis enquanto formas de criação, identidade e memória.
Realismo Ilhéu propõe, assim, um encontro com uma obra que, ao longo de décadas, construiu imagens de Cabo Verde a partir de dentro, transformando pessoas, ofícios e celebrações em património visual. Uma obra profundamente enraizada no território e na experiência das ilhas, onde as vivências se transformam em linguagem artística e a memória coletiva encontra novas formas de permanência. Entre o mar, a rua, a festa e o trabalho, Marcelino Santos mostra-nos que uma ilha também se conta pelas mãos.
Curadoria: Carlos Noronha Feio e Ricardo Barbosa Vicente